A prosperidade estrada a fora
Quem olha de olhos rasos, talvez nem se dê por conta
que junto à tropa desponta, bem mais que a raça do gado
mal comparando esta tropa, pela estrada se estendendo
é o sangue pampa correndo, nas veias do nosso estado!(Gujo Teixeira)
São Borja, fronteira oeste do Rio Grande do Sul; Sorocaba, interior de São Paulo. O percurso entre as duas cidades é longo, cansativo e demanda mais de dia de viagem, seja de ônibus ou de carro. A cavalo, então, seriam meses na estrada. Hoje, seria uma jornada impensável. Mas houve o tempo em que essa era a realidade do gaúcho tropeiro.
Convocação do Dunga – meu pitaco
Pitacos não muito embasados e talvez incoerentes. Vamos lá.
(reportagem originalmente transmitida no programa Radar Esportivo da Rádio Universidade – SM, em 1º/05/2010)
Reportagem em áudio sobre a história da Sociedade Esportiva São Borja, hoje Associação Esportiva São Borja.
Link para download: http://www.4shared.com/audio/OIakoON_/000_-_INTERIOR_ESQUECIDO__-_SO.html
… poesia?!
QUATRO VERSOS PARA DIZER QUE TE QUERO (E NÃO POSSO)
Quando se busca em notas dissonantes
Soltar o nó que a garganta prende,
O violão da alma toca em bossa
Aquilo que a cabeça não entende
Só assim é que o não dito e o não feito
(Por tanto desencontro e pouco jeito)
Em fato, então, transformem seus anseios
Para trocarem as cordas do meu peito
E a esperança que resta é que um dia
Essa parca e covarde melodia
Resolva transcender a poesia
E adentre tua alma em cantoria
Perceba que o injusto nessa vida
(Além de ser amado e não querer)
É ter que ver a vida lhe sorrindo
Sem poder uma flor lhe oferecer.
(texto originalmente publicado em ufsm.br/infocampus, em 20/04/2010)

Pequeno agricultor tu és o grande
Plantador da nova roça que sonhamos
Do calo de tuas mãos há de brotar
O fruto da justiça que buscamos
(H. G. Zanatta)
Seu José, 55 anos, trabalha como agricultor no pequeno município de Segredo, interior do Rio Grande do Sul. Desde que a soja foi implantada no Estado, José é também sojicultor. Depois de tanto tempo nessa atividade, sempre plantando a modalidade comum do grão, José relutou em aderir à modalidade transgênica da cultura, receoso. Suas justificativas para tanto eram diversas e, até então, ele não havia tido problemas com essa opção. Entretanto, ele não sabia que a cooperativa que comprava seus grãos e os dos agricultores não fazia, no ato da compra, distinção entre soja transgênica ou comum – cobrando royalties para a Monsanto, detentora da tecnologia dos transgênicos, mesmo dos que não a usufruíam. Aliás, ele mal sabia o que eram os royalties.
Hermanos
(texto originalmente publicado na Revista Enfoque, edição de maio/2010)
‘A pampa é um país com três bandeiras
E um homem que mateia, concentrado;
Seus olhos correm por sobre as fronteiras
Que o fazem tão unido e separado’
(Rodrigo Bauer)
De quatro em quatro anos, tudo se repete. Brasil e Argentina, irmãos de Mercosul, as duas maiores potências da América Latina, assistem florescer em seu povo um sentimento de incomum ódio mútuo. Ódio que se concentra em um selecionado de atletas, enfileirados para defender as cores de seu respectivo país em certames internacionais. É o auge da rixa entre brasileiros e argentinos. É Copa do Mundo.
Em todas as partes, bombacha.
(texto originalmente publicado na Revista Enfoque, edição de abril/2010)
Ela está em todos os lugares e aqueles que a vestem são das mais distintas idades. É possível encontrá-la na rua, nas praças, nos bares. Do neto ao avô o traje é unânime. Não só no campo – onde é tradicional – mas também na cidade, destoando das calças jeans e bermudas, a bombacha novamente se tornou peça fixa no vestuário dos gaúchos.
O mundo evolui, a música evolui
(texto originalmente publicado na Revista Enfoque, edição de março/2010)
O povo gaúcho é fortemente arraigado às suas tradições. Ainda hoje mantemos costumes que nasceram antes mesmo deste pedaço de terra se chamar Província de São Pedro. Este espírito regionalista (por vezes carregado de bairrismo) sempre se traduziu na música tradicionalista gaúcha.
Um pouco de música…
“Com os pés fincados no chão”, de Zeca Álves, Ricardo Martins e Pirisca Grecco, por Quarteto Sureño + Márcio Müller (maio de 2009)
Arcanjo
(texto originalmente publicado em 16/10/2009, no oscoios.blogspot.com)
Quem precisa esperar em uma rodoviária está acostumado a ter sua moral importunada por pedintes das mais variadas espécies. Surdos que ouvem o barulho de nossas moedas e bêbados que precisam comprar leite pra criança. Gabriel era diferente. Não estava pedindo, estava dando. Um pedaço de papel, com um pequeno texto. Ou, como diria Gabriel, um folhetinho.
Os olhos brilhantes e a voz fina eram comoventes. Até intimidadores seriam, não se tratasse de uma criança.
- Tio, ó um presente.
Eu já estava o dispensando, ligeiramente irritado por ter sido assustado e ter tido minha leitura interrompida, quando assimilei o que ele havia me falado. Presentes são surpreendentes onde, em geral, só se pede.
Devido à peculiaridade do fato, prestei-me a receber e ler o tal presente de Gabriel. Era uma passagem bíblica, Provérbios, 22.6. “Eduque a criança no caminho em que deve andar, e até o fim da vida não se desviará dele”.
Sete anos recém feitos, Gabriel, por ironia, não fazia ideia do que a mim entregava. Mesmo na segunda série, não sabia ler. Talvez tivesse se desviado um pouco de seu caminho. Mas já sabia escrever o nome, o que prontamente fez no folheto.
Fora a mãe quem havia lhe pedido que entregasse os folhetos.
- A mãe sempre me pede pra entregar folhetinho, afirmava o mensageiro de Deus.
Distante do filho e distraída em conversas, a mãe de quando em vez corria os olhos no saguão da rodoviária, buscando saber onde andava Gabriel. Alguma mente incriminadora talvez a comparasse com um patrão, esperando seu empregado cumprir o serviço que lhe foi destinado.
Pergunto a Gabriel se ele estava ganhando alguma coisa pra entregar os folhetos.
- Ela vai me dar um homenzão desse tamanho, dizia o guri, e marcava a altura na cintura.
Gabriel se despediu de mim e seguiu na sua insistente missão, vazia de ideologias e de profundos conhecimentos, mas cheia de humildade. Talvez a fizesse por servidão. Talvez por inocência, talvez por chantagem. Mas, com certeza, a fazia por humildade. Pois aquele que é o mais humilde entre nós, esse é que é o mais importante.